terça-feira, 31 de março de 2026

CANÇÃO DE OUTONO









"Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.
De que serviu tecer flores
pelas areias do chão
se havia gente dormindo
sobre o próprio coração?


E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando aqueles
que não se levantarão...


Tu és folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
E vou por este caminho,
certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão"...
  Cecília Meireles

segunda-feira, 30 de março de 2026

TODAS AS VIDAS

 






Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,

olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Vive dentro de mim

a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Vive dentro de mim

a mulher do povo.
Bem proletária.
Vive dentro de mim

a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...

Fingindo alegre seu triste fado.
Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida —
a vida mera das obscuras.
Cora Coralina